Uma canção para Kelly


em 05/02/2016

Durante anos, Kelly Silva não teve lar. Vivia na rua, na estação de trem de Padre Miguel, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e sobrevivia graças a raros atos de benevolência de algumas poucas pessoas que, eventualmente, ajudavam com um trocado, talvez roupas ou um prato de comida.

Aos 35 anos, era portadora de diversas enfermidades comuns a quem vive nestas condições. Mas o quadro mais grave era o da invisibilidade. Uma doença social. Na rua, mendigando o pão de cada dia, não era notada como ser humano. Uma condição perversa e degradante, cujo remédio não se pode comprar em farmácias.

Em julho de 2015, Kelly foi finalmente notada.

Foi durante uma ação da equipe do “Consultório na Rua” da Clínica da Família Faim Pedro, ligada à CAP 5.1 – uma das dez Áreas Programáticas do município (forma usada pela Prefeitura do Rio e pela Secretaria Municipal de Saúde para dividir a cidade em sub-regiões, respeitando questões sociais e de territorialidade no atendimento).

Formada por agentes sociais, enfermeiros, psicólogos e médicos, a equipe do “Consultório na Rua” tem como missão ampliar o acesso da população em situação de rua e ofertar, de maneira mais oportuna, atenção integral à saúde, por meio das equipes e serviços da atenção básica. Só nos dez bairros que compõem a CAP 5.1 já são pessoas 969 cadastradas.

Entre elas, Kelly.

Uma das estratégias de abordagem usadas pela equipe é a música. Para isso, o agente social Kelson Moraes costuma usar seu acordeom como instrumento de trabalho, tocando canções com o objetivo de romper barreiras e se aproximar da população de rua.

Ao escutar as melodias que saíam da sanfona de Kelson, na noite em que a equipe do “Consultório na Rua” chegou à estação de Padre Miguel, uma faísca se acendeu nos olhos de Kelly. Ela se aproximou e, para a surpresa de todos, começou a cantar. Uma voz firme, afinada, bonita.

O tratamento para a cura da invisibilidade começou ali.

Kelly tornou-se paciente do “Consultório na Rua”, recebeu remédios, atendimento médico, social e psicológico, e continuou cantando sempre que encontrava Kelson e seu acordeom, tanto na rua quanto no prédio da Clínica da Família Faim Pedro.

Hoje, Kelly está domiciliada. Encontrou um companheiro, e mora com ele na Vila Vintém, ainda perto da estação de trem de Padre Miguel, mas muito longe daquela realidade cruel que viveu por anos.

Mesmo com um lar, ela ainda é acompanhada pela equipe do “Consultório na Rua”, em um trabalho permanente de recuperação da saúde, da dignidade humana e da autoestima da paciente.

Histórias como a de Kelly seriam impossíveis de acontecer no Rio de Janeiro até bem pouco tempo atrás. O município vivia uma condição de abandono completo do atendimento primário da saúde, transformando a cidade em um deserto sanitário. Em 2008, apenas 3,5% da população da capital tinham cobertura de uma Estratégia de Saúde da Família. Um quadro gravíssimo, que contribuiu para uma intervenção federal na saúde no município.

O jogo só começou a virar em 2009, no início do mandato de Eduardo Paes. Convencido de que o modelo de gestão adotado até então para a saúde municipal estava falido, o prefeito decidiu implementar o modelo de gestão com a coparticipação de Organizações Sociais (OSs), entidades sem fins lucrativos regulamentadas por lei federal de 1998.

Neste modelo, as OSs são contratadas pela prefeitura e recebem repasses de recursos para administrar bens públicos, cumprir metas e prazos determinados pelo governo. Isso em prol de uma gestão mais ágil, transparente, eficiente e, acima de tudo, melhor para a sociedade.

Desde então, o deserto sanitário ficou para trás. Até o fim de 2016, nada menos que 70% da população do município do Rio de Janeiro terá cobertura da Estratégia de Saúde da Família – serão 100 Clínicas espalhadas por toda a cidade – sem contar as UPAs, Centros de Saúde, Policlínicas, Hospitais, Institutos e Maternidades.

Entre as OSs habilitadas para atuar na administração da saúde pública no município do Rio de Janeiro – e corresponsáveis por esta revolução –  o Instituto de Atenção Básica de Saúde (IABAS) vem se destacando pela excelência do trabalho realizado.

Responsável pela Estratégia de Saúde da Família em três Áreas Programáticas na Zona Oeste da cidade, por três UPAs (Madureira, Vila Kennedy e Costa Barros) e pelo Programa de Atenção Domiciliar ao Idoso (PADI), o IABAS conta com 4.474 colaboradores, tais como médicos, dentistas, enfermeiros, psicólogos, agentes sociais e demais profissionais de saúde. Entre eles, toda a equipe do “Consultório da Rua” da Clínica da Família Faim Pedro. A mesma que resgatou a humanidade da ex-moradora de rua Kelly Silva.

Ao longo de seis anos de atuação no Rio de Janeiro, as unidades administradas pelo IABAS já realizaram mais de 5 milhões de atendimentos, com resultados expressivos no atingimento das metas de qualidade.

Com a inauguração de 30 Clínicas de Família prevista para 2016, o IABAS passará a administrar 100 destas unidades na cidade, solidificando-se como o principal gestor de atenção primária de saúde no Rio de Janeiro.

Um trabalho que se estende muito além do atendimento médico: ele resgata a cidadania de uma enorme parcela da população carioca, que viveu décadas de abandono. É um trabalho que busca, em primeiro lugar, a promoção da saúde. Nas Clínicas da Família, por exemplo, são desenvolvidas estratégias e ações integradas com o objetivo de prevenir riscos, agravos e doenças, promovendo a compreensão da morbidade e o aumento da qualidade de vida das pessoas. Ações com enfoque na saúde da criança, saúde da mulher, saúde do idoso, hábitos saudáveis e atividades físicas.

Projetos como a Academia Carioca, que equipa as unidades de saúde com aparelhos de ginástica e disponibiliza professores de Educação Física para orientar a população na prática de exercícios. Em 2015, havia 21 mil usuários cadastrados nas 49 Academias Cariocas administradas pelo IABAS.

Outro projeto de alto impacto é o PADI, que tem como objetivo reduzir o tempo médio de permanência dos pacientes internados com patologias de média complexidade. A ideia é manter o usuário integrado à família e ao meio ambiente, promovendo a integralidade do cuidado. Atualmente são 15 equipes multidisciplinares sediadas nos Hospitais Municipais Salgado Filho, Miguel Couto, Lourenço Jorge, Francisco Telles e Pedro II. Os profissionais envolvidos cobrem 75 bairros em toda a cidade, e o programa foi responsável por 556 desospitalizações em 2015.

Nas UPAs, que são responsáveis por reduzir a procura pelas emergências hospitalares, os resultados são ainda mais expressivos: nada menos do que 97% dos pacientes que dão entrada em uma dessas unidades não precisam ser encaminhados para hospitais. Ou seja, um alívio para uma rede que ainda está sobrecarregada.

Portanto, o tratamento humanizado, a valorização das pessoas, o respeito à ética e a busca permanente por excelência são valores mais do que inerentes ao IABAS: são inexoráveis.

Em paralelo a aplicação permanente de tais valores, a infraestrutura moderna e adequada de todas as unidades administradas pelo IABAS permite que o usuário da rede municipal receba um atendimento de ponta, em todos os sentidos.

É, definitivamente, uma ruptura com o senso comum (e antiquado) de que o que o bem público “não presta”. E, ao mesmo tempo, é o cumprimento efetivo do que está previsto na Constituição Federal: a garantia de um acesso universal a um sistema de saúde gratuito e de qualidade.